sexta-feira, 19 de abril de 2019

Fusão Étnica Contemporânea



Este texto é uma reflexão fruto de experimentações pessoais e observações do processo evolutivo das criações em fusão no Brasil e no exterior. O desdobramento de um estilo em outro através de elementos criativos que são transmitidos de uma dançarina a outra em intercâmbio em uma mesma comunidade através de aulas, workshops, festivais e vídeos.
Apresento sugestões de nome para estilos derivado de outros estilos de dança.

Quando, graças à investigação criativa dos coreógrafos, um estilo de dança toma caminhos que o leva a romper as suas próprias fronteiras criativas, ele talvez precise de novos títulos e subtítulos que traduzam estas diferenças em relação à sua modalidade matriz.

FatChance BellyDance 

O Estilo Tribal Americano (ATS®), desde o seu surgimento, já inspirou milhares de novas dançarinas a criarem novos caminhos para explorar suas influências. Não demorou muito para que surgisse o ITS, o Tribal Fusion e a partir destes, outras possibilidades de fusão, Fusion Belly Dance, o Tribal Urbano, Neo Tribal, Dark Fusion, Fusão Tribal Brasileira, entre muitas outras fusões étnicas e temáticas.

A Fusão Étnica Contemporânea surge das fusões abordadas na formação do estilo tribal, mas propõe um olhar contemporâneo diferenciado, rompendo fronteiras criativas e se baseando em influências externas de outros estilos de danças cênicas.

Tribal

Tribo Berbere

O dicionário da língua portuguesa apresenta alguns significados diferentes para o vocábulo “Tribo”. Antropologicamente: “Grupo de pessoas que descendem do mesmo povo, partilham a mesma língua, têm os mesmos costumes, tradições etc.” Biologicamente: “Classificação sistemática e menor que a subfamília.” Historicamente: Divisão de um mesmo povo, como as doze tribos de Israel ou as tribos romanas, ou no sentido figurado: “Grupo de pessoas que partilha interesses, gostos, relações de amizade.”

Existem muitas definições para tribo e por consequência para o que será considerado tribal. Em comum à todas as definições é o sentido de coletividade, de afinidade entre participantes de uma mesma tribo. As manifestações artísticas de uma tribo serão fruto de hábitos e costumes semelhantes.
Loko Kamel Tribal Dance

Sabemos que o vocabulário de movimentos do American Tribal Style® tem raízes em movimentos de tribos ciganas, beduínas e berberes do norte da África, além do flamenco e de danças clássicas indianas, e que busca referências estéticas tribais para composição de figurino e inspiração musical. Apesar disso, o que realmente me leva a entender o estilo como um “estilo tribal de dança” é a natureza da improvisação coordenada que envolve as participantes de um mesmo grupo em uma mesma conexão mental e emocional. Também o fato de ser um estilo pensado para grupo e o fato deste grupo precisar conviver e treinar junto para desenvolver uma conexão cada vez maior entre si. Quanto maior a conexão, mais sincronizado e bonito é o resultado do ato de improvisar junto. O estilo tribal americano possibilitaria então, a formação de tribos no sentido figurado, com influências estéticas de tribos no sentido antropológico.

Danças populares e danças cênicas

Folia de reis - dança popular


Dança popular é aquela originária dos costumes de um povo. Fruto da história deste povo, das miscigenações, das características geográficas de onde provém a sua origem, de sua música, de sua comida, do clima de sua região. A dança popular será em família, com amigos, em ambiente descontraído, uma festa, um evento popular, não exige refinamento técnico de quem dança, é desenvolvida de forma espontânea e natural. Algumas danças são ligadas a rituais religiosos e são praticadas há tanto tempo que ganham status de danças folclóricas. Não vamos nos estender na conceituação de folclore, porém. Existem incontáveis danças populares ao redor do mundo em todos os povos, em todos os continentes. Danças populares que são expressões étnicas de seus povos, sua corporeidade, sua musicalidade, sua maneira de se vestir.

Equilíbrio Cia de dança
Dança cênica é aquela criada na idade média para entretenimento e expressão artística da classe nobre. As danças palacianas, desde as cortes europeias às andaluzas, danças criadas para apreciação de um público, para o desenvolvimento do virtuosismo, da técnica refinada. É a origem do balé e de diversos outros estilos que surgiram de seu desdobramento, negação ou evolução: A dança moderna, a dança contemporânea, o jazz, entre outras.




Existem muitos casos de danças populares que evoluíram para danças cênicas. Os profissionais de dança mais antigos foram os ciganos em diversas partes do mundo, por seu costume secular de usar suas danças populares para entretenimento e forma de ganhar dinheiro. O fato de expor a dança à apreciação de um público é já em si transformador da maneira como esta dança será apresentada, existindo uma preocupação com a delimitação de um espaço cênico, com a ocupação deste espaço, com posicionamento dos dançarinos, figurinos, maquiagem. Independente do estilo que está sendo apresentado, esta dança vai sofrer alterações de sua natureza espontânea original dando espaço à premeditação técnica, ao ensaio, ao desenvolvimento cênico.







Foi exatamente este o processo sofrido pelas danças populares egípcias no surgimento da dança do ventre, dança cênica que conhecemos hoje em dia, com raízes étnicas populares muito claras, mesmas raízes do American Tribal Style®, diga-se.

Fusão

Voltemos ao dicionário. Existem diversos sentidos para o vocábulo fusão, seja na química, física, estatística, política, linguística, sentido jurídico. Vamos nos ater ao sentido figurado apresentado pelo dicionário on line de português: “Junção proveniente da ligação ou combinação entre dois sujeitos, objetos, etc.” Também podemos entender como a união de dois elementos para formar uma terceira coisa.

Um dançarino que mistura no fazer de sua dança duas referências distintas estará fazendo uma fusão que pode se desdobrar em algo novo, surpreendendo a quem assiste, trazendo criatividade e um olhar diferenciado ao dançar.

Fusão na dança pode ser a mistura de quaisquer elementos de danças populares, cênicas, étnicas ou não. Você pode fusionar baladi com balé, ou afro com indiano, hip hop com hula hula, jazz com flamenco. Aquilo que fizer sentido para você, artista criador. Aquilo que te desafia a questionar o mundo, a fazer diferente, que te parece belo. Não existem proibições à criação cênica, embora existam algumas discussões contemporâneas a respeito da apropriação de determinados elementos étnicos para criação, seus limites serão aqueles impostos pela sua própria disposição corporal, mental e emocional. No meu entender, aquilo que faz sentido, que te move, deve ser explorado artisticamente, sem pudores.


Hip hop moderno contemporâneo

Fusão Étnica

Entendo por fusão étnica a utilização de um ou mais elementos de origem popular em uma criação cênica. Uma performance de fusão étnica pode ter um peso maior dos elementos estéticos de uma etnia específica, como música, figurino, movimentos. Porém uma fusão não pode pretender representar aquela etnia de forma fidedigna, ou não será uma fusão.
A que serve uma criação fusionada, a final?

Fusões servem para encontrar paralelos e interseções, apontar contrastes e diferenças entre os estilos fusionados. Existem muitos movimentos comuns a danças completamente diferentes, como por exemplo: Mamboty e frevo. Como estudante de danças populares egípcias e brincante do carnaval pernambucano, fiquei chocada ao descobrir a gama de movimentações semelhantes nestas duas danças de origens muito distintas. A minha tentação de “frevar” na semsemaya ou de fazer mamboty no frevo é bem grande! Pense na dificuldade de criar uma coreografia isenta de fusão. Poderia ser muito interessante uma fusão étnica com estes elementos, quem sabe, um marinheiro de sombrinha colorida. Uma brincadeira, um encontro de culturas, uma identificação de nossas semelhanças como seres humanos habitantes de um mesmo planeta redondo, onde as informações culturais giram no migrar dos povos e se renovam através dos tempos.


Bollywood – Fusão Étnica

Neste contexto das fusões étnicas, a própria dança do ventre como a conhecemos, já seria uma fusão entre elementos de danças populares regionais com elementos cênicos como o balé. O estilo tribal americano de dança do ventre (como foi originalmente nomeado) é seguramente uma grande fusão étnica, catalogada e formatada em um sistema de criação definido, com vocabulário de movimentos próprio e códigos para figurino e interpretação da música.

Fusão Étnica x Estilo Tribal

Embora o estilo tribal seja uma fusão étnica, ele não é aberto. Não é qualquer fusão entre os elementos de danças árabes, flamenco e danças indianas que vai ser considerada tribal. Como dito anteriormente, o estilo tribal americano é um sistema definido e fechado em seus códigos. Movimentos novos apenas são aceitos como vocabulário oficial de dança tribal, após anos de prática, testes e após cair no uso geral das praticantes de ATS® ao redor do mundo.
Fusões étnicas não se pretendem tribais, podem ter aspectos muito abrangentes e nenhuma preocupação em corresponder a este ou aquele código. Para exemplificar, podemos usar a figura de um guarda-chuva, onde o guarda chuva em si seriam as fusões étnicas e o ATS® uma de suas pontas.

Contemporaneidade

Desde o início do século 20 muitos coreógrafos se dedicaram a buscar novas maneiras de expressão corporal diferentes da rigidez do balé clássico. Esta busca deu origem ao balé contemporâneo, à dança moderna e posteriormente à dança contemporânea. A dança contemporânea pode ser considerada um desdobramento da dança moderna, bastante embasada em pensamentos desenvolvidos no pós segunda guerra por filósofos e pesquisadores do corpo, do espaço e de pesquisas somáticas, buscando uma maior integração do bailarino com a consciência de si, com o ato de questionar o mundo à sua volta e seu papel no mundo, buscando uma maior integração com o espaço que ocupa, com seu público e com a expressão de suas ideias.

Não existe um vocabulário de movimentos específico para dança contemporânea, em tese cada coreógrafo tem a liberdade de pesquisar e criar seu próprio vocabulário de movimentos de acordo com o que lhe interessa criar. Muitos coreógrafos embasam sua técnica em balé ou em elementos de dança moderna, outros buscam uma naturalidade de gestos cotidianos, ou uma busca por uma teatralização, derrubando as barreiras entre a linguagem teatral e a da dança. A música não precisa ser interpretada como na maioria das modalidades, funcionando mais como uma trilha sonora do que como ferramenta fundamental da linguagem. A dança contemporânea pode acontecer com ruídos, sons de natureza ou mesmo longos pedaços em silêncio. Pode propor interações com outras formas de arte e tecnologia, transcendendo o palco e o espaço cênico.


Coreografia de Pina Bausch (uma das maiores referências da dança contemporânea) para “Sagração da Primavera” de Stravinski

Existem sim clichês de movimentos da dança contemporânea, aquelas técnicas fruto de exercícios que passam de dançarino a dançarino e acabam por permear a criação de diversos artistas. Isto é quase inevitável de acontecer e propõe um catálogo de movimentações para iniciação na modalidade.
No meu entendimento, o que melhor pode definir o legado da dança contemporânea para todas as outras modalidades de dança é um olhar diferenciado sobre a criação. Questionamentos e quebras das regras anteriormente estabelecidas, o uso da técnica como um meio de expressão e não como um fim de virtuosismo somente. Este olhar pode ser estendido a qualquer modalidade e já é uma realidade nos processos de composição coreográfica de diversos artistas ao redor do mundo, incluindo os coreógrafos de danças étnicas populares e, como não poderia deixar de ser, influenciando a dança do ventre, a fusão, o tribal fusion e todo o seu universo ao redor, criando a fusão contemporânea.

Muitas artistas renomadas no meio se especializam em buscar a contemporaneidade nas suas obras, uma nova maneira de usar a técnica renovando o espaço cênico e as ideias aplicadas à dança. Várias já ministram workshops dedicados ao tema como é o caso das incríveis Mira Betz e April Rose, que através de suas criações trouxeram novo fôlego ao mundo da Fusion Belly dance e romperam de vez algumas fronteiras criativas.


Mira Betz e sua coreografia épica no The Massive Spetacular em 2011

Fusão Étnica Contemporânea

Romper as fronteiras da criação é algo que me interessa bastante enquanto coreógrafa. A liberdade de auto expressão sem regras de representatividade, sem regras estéticas onde eu possa me servir de todas as minhas ferramentas corporais e musicais para expressar uma ideia, um pensamento, uma emoção. A liberdade de investigar diferenças e interseções entre diversas linguagens populares para uma criação expressiva e cênica. Esta liberdade seria o olhar contemporâneo sobre a criação.
Transitar por conceitos de dança tribal é uma opção, para lá de não obrigatória. Acredito que falando de minhas criações pessoais, é bem possível que haja variedade de movimentações de origem tribal, afinal, minha corporeidade está embebida nesta formação técnica, mas é apenas mais uma ferramenta de movimentação e não é uma preocupação ou um foco criativo.

A Fusão Étnica Contemporânea se forma a partir da possibilidade de fusão de diversas referências culturais em um mesmo espaço corpóreo, revelando a possibilidade de manifestação da diversidade cultural em uma só linguagem.

O termo em si é uma sugestão para que as dançarinas e criadoras de fusões olhem para sua própria dança com curiosidade, um desejo de investigar onde estão os limites a serem transpostos em suas criações.
Nadja El Balady – Nostalgic


Shaman Tribal - Carcará

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Ouled Nail


Ouled Nail
Por Nadja El Balady
Este texto foi baseado nos artigos “The Ouled Nail” de Maggie Mcneil e “Dancing for Dowries part 2 – Earning Power, Ethnology and happily ever after” de Andrea Deagon

No sul da Argélia, nas montanhas do Atlas, desde tempos imemoriais até hoje em dia (ainda) encontramos diversas tribos berberes vivendo e, de acordo com o possível, mantendo suas tradições. Estas tribos, islamizadas entre os séculos VII e VIII, têm seus nomes antecedidos pela palavra “ouled”, que funciona como um tipo de designação: Ouled Abdi; Ouled Daoud; Ouled Nail. A partir da década de 60, suas tradições se tornaram objeto de estudo das dançarinas de dança oriental no ocidente, sobre tudo das norte americanas, que passaram a usar elementos desta etnia como inspiração para suas criações em dança.
Dentre as tribos citadas, Ouled Nail (leia-se wil-ed na-il) ganharam maior atenção por conta das características memoráveis das suas tradições femininas. Diversos pesquisadores ocidentais se interessaram pelo tema e em comum encontraram a informação de que as mulheres desta tribo, chamadas Nailiyat (singular Nailiya), costumavam se dedicar à dança e às artes eróticas durante um determinado período de sua vida. Segundo Maggie Macneil, as meninas nailiyat não eram forçadas a exercer esta atividade, possuíam poder de escolha e ainda assim muitas delas optavam por este caminho.

A partir dos 12 anos as meninas eram ensinadas por mulheres mais velhas da família (que poderia ser a mãe, uma avó, uma irmã mais velha, uma prima ou uma tia) e eram levadas para as cidades abaixo das montanhas para viver durante uma parte do ano e a trabalhar como dançarinas e prostitutas. Estas mulheres mais velhas eram responsáveis pelo bem estar da menina, cuidavam da casa e ajudavam a administrar os negócios. Esta era uma tradição que objetivava acumular dinheiro e joias de modo que, ao retornar definitivamente para suas vilas de origem, esta menina, já tornada mulher, pudesse ter independência financeira, pudesse comprar uma casa própria, investir em um negócio e se quisesse, procurar casamento. Ao se casarem, tomavam uma vida comum, em um casamento fiel, como se espera de toda mulher casada.
Ninguém sabe dizer ao certo o período de origem desta tradição, mas é provável que seja muita antiga, anterior ao Islã, pois foram encontrados registros da presença das nailiyat na ocasião da chegada dos árabes na cidade de Bou Saâda no século VII. Bou Saâda (que significa “Lugar da Alegria”) era um dos principais destinos das nailiyat para sua morada temporária e comunidades inteiras compostas apenas por mulheres eram encontradas por lá.
Nestas comunidades, segundo Andrea Deagon, os homens eram admitidos temporariamente como amigos, aliados, admiradores, parceiros de negócios ou parceiros sexuais, mas nunca em caráter definitivo. Algumas mulheres não chegavam a voltar para sua vila natal, preferindo a vida na cidade, abriam negócios, ou se casavam com estrangeiros.
Segundo Marnia Lazreg (1994), as mulheres das tribos Ouled Abdi e Ouled Daoud, conhecidas como Azriyat, também tomavam as profissões de dançarinas e prostitutas, mas somente quando eram órfãs, se tornavam viúvas, divorciadas, repudiadas, incapazes de se casar por algum motivo. Exerciam estas atividades até que conseguissem casar ou permaneciam sós.


É possível que a tribo Ouled Nail, tanto mulheres quanto homens, cultivassem conceitos diferenciados a respeito de sexo, casamento e amor. Encontramos no texto de Maggie Macneil uma passagem retirada do livro “Flute of Sand” (1956) de Lawrece Morgan que nos dá uma pista a respeito. Trata-se de depoimento de um homem da tribo sobre o casamento com uma mulher que tivesse seguido a tradição:
 “Nossas esposas, sabendo o que é o amor, e sendo proprietárias de sua própria riqueza, vão casar apenas com o homem a quem amarem.  E, diferentes das esposas de outros homens, vão permanecer fiéis até a morte, graças a Allah.”
Alguns pesquisadores adotam a linha de pensamento que as nailiyat dançavam para acumular dote, que o dinheiro arrecadado servia para atrair bons partidos. Esta ideia se tornou popular entre algumas dançarinas norte americanas, ignorando sua prostituição e menosprezando sua independência financeira. É possível que esta interpretação seja fruto direto do machismo vigente no pensamento ocidental e tem origem na interpretação de observadores franceses que desde a ocupação francesa na Argélia em 1830, que consideravam a tradição das nailiyat como uma espécie de rito de passagem antes do casamento. Andrea Deagon aponta para a importância de não diminuir, ou omitir, a atividade de prostituição destas mulheres, pois era um aspecto de uma cultura complexa onde as mulheres eram sexualmente livres e independente financeiramente.
Segundo Maggie Macneil, o contato com a cultura europeia, a partir da ocupação francesa, ao mesmo tempo em que as fizeram famosas, se tornando objeto de pinturas de artistas do período orientalista, trouxe a estas mulheres grandes transformações. Ainda na virada do século XIX para o século XX, mercenários franceses matavam as mulheres para roubar seu dinheiro e suas joias. Oficiais franceses passaram a sobretaxar as viagens e a residência em outras cidades que não suas vilas de origem. Durante a primeira guerra mundial, foram coagidas a trabalhar em cafés e casas específicas onde eram exploradas por homens. Algumas aderiram aos bordéis móveis de campanha, usados pelo exército francês até 1954 e pela legião estrangeira até a década de 90.


No final da segunda guerra mundial, a vida de todo o povo berbere argelino mudou muito, pois o governo autoritário da época os obrigou a trabalhar nos campos da agricultura estatal.
Na década de 70, a dançarina norte americana Aisha Ali encontrou um pequeno grupo de mulheres ainda vivendo e dançando em Bou Saâda. Sua pesquisa nos deixou registro muito importante do modo como se vestiam e movimentavam. A estética de movimento e figuro influenciou diretamente Jamila Salimpour e seu trabalho no grupo Bal Anat e como consequência, todo o Estilo Tribal de Dança do Ventre.
Seu modo de dançar, apesar de cobertas dos pés à cabeça, era considerado lascivo e escandaloso pelos estrangeiros. Muitos movimentos de encaixe pélvico e redondos, shimmies de ombro, lateralização de cabeça, movimentos de mão, cambrés, giros e o uso ocasional de lenços em ambas as mãos.



Vídeos de referência para dança

segunda-feira, 13 de março de 2017

A Influência do Folclore Árabe na Formação do Estilo Tribal

Ao abordar este tema precisamos mergulhar na história da dança do Ventre e sua evolução tanto no Egito quanto nos Estados Unidos. É preciso viajar no tempo. É preciso retornar à década de 70 e tentar, através dos escritos e de imagens, compreender o processo criativo de Jamila Salimpour e Macha Archer, duas grandes referências do período que vamos considerar “Pré Tribal”. É preciso considerar a mentalidade das dançarinas da época e a cultura vigente na Califórnia da década de 70.
Samya Gamal - Golden Age Era
Perceber a diferença entre a Dança do Ventre popular/folclórica, advinda do deserto e a Dança do Ventre que evoluiu para o glamour urbano da tela do cinema e do show business é fundamental para entender a diferença entre os estilos da Dança do Ventre do século XXI.
A evolução da dança do ventre no Egito, desde o final do século XIX até hoje em dia, traz a transição da dança popular egípcia (tipicamente ghawazee e beduína) em uma dança cênica, fusionada e glamorosa. Uma dança totalmente voltada para entreter a sociedade urbana, consumidora de cinema, frequentadora da vida noturna, com gostos cada vez mais refinados e europeizados. Encontramos nos filmes antigos algumas referências à cultura rural no Egito, incluindo suas danças e músicas, mas geralmente estas já eram apresentadas de forma estilizada tanto em concepção musical, como em coreografia. Esta dança, que evoluiu para o estilo egípcio moderno, que possui grande mercado de show business e se espalhou mundo a fora no final do século XX, é a inspiradora do estilo cabaré americano, estre outros.
Ouled Nail
A Dança do Ventre base, de raiz é aquela ligada às danças populares e folclóricas de países do Norte
da África e oriente Médio e são conectadas aos hábitos dos povos do deserto e têm origem milenar. Falamos dos povos nômades, de beduínos, berberes e ciganos. As ciganas ghawazee egípcias, mesmo tendo já há muitos séculos se estabelecido em cidades, têm no DNA da sua arte a estética desenvolvida ao longo das migrações pelo deserto e intercâmbio com estes outros povos. As movimentações femininas de povos da região do Magreb, como a dança das Ouled Nail , danças populares tunisianas e apresentações nos mercados populares são inspirações estéticas para o que vamos chamar de “dança do deserto”. Uma dança não “refinada” no sentido urbano da palavra, que usa elementos de seus povos, de suas vilas, de suas tradições mais antigas. 
Jamila Salimpour
Jamila Salimpour, nascida em 1926 em Nova Iorque (EUA), era dançarina de dança do ventre do estilo chamado “Cabaré americano”. Vamos tentar entender o que é isso em poucas palavras.... As primeiras apresentações de dança do ventre, nos Estados Unidos, aconteceram no início do século XX. Em um ambiente estrangeiro, dificilmente a arte se mantém pura, especialmente se a ela for agregada o talento natural que os americanos têm para show business e comércio. A dança do ventre coube naturalmente nos espetáculos de cabaré e não demorou para que as americanas aprendessem a dançar e o show encontrasse um formato adequado para o gosto público local. Temos que o estilo “Cabaré Americano” evoluiu ao longo do século XX em um ambiente multiétnico (devido a inúmeras imigrações de povos do oriente), com mentalidade artística inovadora e voltada para o comércio com o público americano.
Nas décadas de 60 e 70, somamos a este cenário o ideal hippie, a mentalidade da era de aquário, através da qual uma parcela da população americana busca uma espiritualidade conectada à liberdade do corpo e de movimento. A transcendência através da meditação, da música e das artes. A revolução sexual feminina. Isto tudo se encaixa perfeitamente ao que a dança do ventre pode oferecer à mulher californiana.
Mediante este contexto, retornamos à Jamila. Entre as décadas de 50 e 60 manteve contato com diversas dançarinas egípcias, turcas e armênias. Com elas aprendeu muito de seu vocabulário de movimentos. Ao se casar com Ardeshir Salimpour, pai de Suhaila, foi proibida por ele de se apresentar publicamente e foi quando começou a dar aulas. Sendo uma das primeiras professoras de dança do ventre nos Estados Unidos, Jamila compilou todo o seu conhecimento dos movimentos de diversas culturas e criou um mecanismo onde as americanas pudessem acessar a técnica da dança de forma racional, para que pudessem compreender e transformar em movimentos. Adaptou movimentos, estabeleceu padrões para os toques de snujs e criou terminologias, deu nome para os passos, muitos deles conhecidos por nós ainda hoje em dia como “oito maia” ou “hip drop”. Ela organizou os movimentos de acordo com as etnias de origem e é neste ponto em que finalmente chegamos ao objeto de observação deste artigo. 
Segundo Shareen El Safy, no artigo “Shaping a Legacy: A New Generation in the Old Tradition” As famílias de classificação de movimentos cridas por Jamila os dividia em “Tunisian, ” “Algerian, Moroccan,” “Egyptian, ” e “Arabic. ”  Significa que a movimentação de quadril ensinada por Jamila possuía características étnicas baseadas em danças populares regionais, não só nas apresentações de espetáculo ou nas dançarinas do cinema da chamada “Golden Age of Egyptian BellyDance".
Jamila Salimpour

Egípcias Ghawazee
Dançarina Bal Anat
Berbere Marroquina


Esta influência se torna cada vez mais evidente à medida em que ela estrutura as apresentações do grupo “Bal Anat” na “The Renaissance Pleasure Faire. ” Criado em 1968, o grupo Bal Anat combinava apresentações inspiradas no folclore tunisiano e magrebino com performances típicas de cabaré americano, com uso de acessórios como véu e espadas. A própria Jamila se encaixava nos shows sempre com lindos trajes folclóricos e maquiagens típicas das Ghawazee ou Ouled Nail. As bijuterias, os turbantes, os vestidos, toda uma estética de figurino e movimentação baseadas em etnias
Bal Anat
do norte da África, na região do Saara. A própria concepção cênica lembra as apresentações nos mercados populares de Marrakesh: Músicos em trajes folclóricos tocando ao vivo, dançarinas no palco formando um cenário vivo, o uso de acessórios folclóricos como cestas, jarros e mesmo serpentes. Estes elementos traziam às apresentações do grupo um aspecto exótico, muito valorizado na época. Com certeza, um grande diferencial no mercado de dança do ventre da época.
No grupo Bal Anat, analisando com cuidado, é possível perceber as duas influências, sendo, porém, tudo considerado “Belly dance”. Para nós é importante compreender que nenhuma delas, Jamila Salimpour, Macha Archer ou Carolena Nericcio, precursoras, ou mesmo criadoras, do que veio a se chamar Estilo Tribal, nenhuma delas deixou de considerar o próprio trabalho como Dança do Ventre. Dança do ventre, para todos os efeitos, é de onde veio, e o que define a linha estética do que é e do que sempre será, se não perder a sua essência.*
Vídeo Bal Anat – Influências Tribais X Cabaré Americano

Ainda sobre o Bal Anat e o trabalho de Jamila, vamos encontrar ali diversos elementos como vocabulário de movimentos, toques de snujs e padrões ainda utilizados como a base do Tribal. A maioria baseados em danças Ghawazee e Ouled Nail. Vale considerar que Ciganos, Beduínos e Berberes são povos divididos em diversas etnias, tribos e clãs, e que têm costumes e idiomas próprios. Embora, hoje em dia, sejam de maioria muçulmana, as tribos mantêm suas tradições da melhor maneira possível, apesar das inúmeras dificuldades de sobrevivência apresentadas nos dias de hoje. São considerados verdadeiramente tribais assim como seus costumes, suas músicas e danças.

Vídeo Danseuse des Ouled Nail (Algérie 1901)

Vídeo Banat Mazin Ghawazee

Segundo consta em diversos textos sobre a história do Tribal, Masha Archer foi aluna de Jamila Salimpour e criou o seu próprio grupo, que dirigiu por 15 anos: A San Francisco Classic Dance Troupe. Em sua trupe, Macha pôs em prática muito da estética Bal Anat para figurino e dança, trazendo, porém, alguns diferenciais. A percepção é a de que Macha derruba de vez algumas fronteiras culturais dentro da dança oriental e busca novos elementos em que se inspirar como o Flamenco, agregando flores e xales, bem como uma postura bastante altiva para a dança. É dito pela própria Carolena que no trabalho da San Francisco Classic Dance Troupe já existiam conceitos como o de formação, de coro e “feature” e que esta linha de trabalho foi levada por ela como base para as criações do grupo Fat Chance BellyDance® e que foi largamente ampliada e aprimorada ao longo do tempo de experimentações e que resultou na linguagem estética que hoje chamamos de American Tribal Style®.
Vídeo Macha Archer e San Francisco Classic Dance Troupe

O Estilo Tribal de Dança do Ventre, por tanto, captura a estética de vestimenta e movimentação das danças do deserto e produz um estilo novo e adaptado ao gosto ocidental com referências étnicas diversas que se combinam de maneira inusitada com apelo exótico e artístico. Com raízes tanto em danças tribais ancestrais como no pensamento libertário da das décadas de 60 e 70, o Tribal traduz um desejo de retorno à uma comunidade imaginária, feminina, livre, feliz e que encontra na dança sua maior celebração e união. Isto tudo muito bem elaborado, estruturado, organizado e divulgado por Carolena Nericcio e suas seguidoras que souberam bem comercializar e difundir pelo mundo este trabalho que se desdobrou no Tribal Fusion e o mar de possibilidades estéticas contemporâneas que surgiram a partir de então.
Carolena Nericcio e seu grupo em 1985


[1] Ouled Nail é uma tribo Berbere da região do Magreb, nas montanhas do Atlas na Argélia. Sua tradição ainda é matriarcal e têm na dança sua maior fonte de renda.

* Recentemente têm sido vinculada a informação de que Carolena Nericcio não mais considera o ATS® como um estilo de Dança do Ventre, mas um estilo de Dança. Isto porque as bases do ATS® juntam influências de outras danças matriz como o Flamenco e a Dança Indiana. Entendo que por ser o estilo muito recente em termos de história da Dança ele pode se manter em transformação de conceitos mesmo por sua fundadora, mas até bem pouco tempo, ainda se falava em ATS® como sendo Tribal Style Belly Dance - ou seja - Dança do Ventre