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quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Ghawazee


A influência do folclore árabe na formação do Estilo Tribal 

Parte 3: Ghawazee


 “Ghawazee” é plural da palavra “Ghazya” que significa originalmente “invasores”, posteriormente ganhando o significado “dançarinas” dentro do dialeto árabe egípcio, segundo inúmeras fontes. Segundo Mirian Peretz, no artigo “Dances of the “Roma” Gypsy Trail From Rajastan to Spain: The Egyptian Ghawazi Dance”, a origem da palavra designa grupamento de pessoas no Egito de origem das etnias Nawar, Halab e Bahlawan. Peretz dá destaque aos nawari que seriam um povo originário do Curdistão, tendo imigrado pelo oriente médio até o norte da África. Existem controvérsias entre os pesquisadores a respeito se seriam ou não considerados etnias ciganas. Como bem coloca o Dr. G.A. Williams em seu artigo “Dom of the Middle East: An Overview”, frequentemente se usa a palavra “cigano” para designar um estilo de vida comum de grupamentos étnicos que podem ou não ter uma origem comum comprovada. Dentro deste ponto de vista, estes clãs que imigraram para o Egito pertencentes a estas etnias seriam considerados ciganos por muitos de pesquisadores.

Os clãs de ciganos passaram séculos se deslocando e comercializando com outros povos nômades como Beduínos e Berberes. Desde a diáspora cigana, imagina-se que as tribos que desceram pelo Oriente Médio transitaram por alguns séculos até atingir o norte da África e por ali ainda se dividiram por diferentes regiões, como Egito, Argélia, Tunísia e Marrocos. Estes que imigraram para o Egito se estabeleceram em algumas regiões do território do país, principalmente na região delta do rio Nilo, no sul (região conhecida como alto Egito ou Said) e no próprio Cairo.

É de conhecimento público que para estes povos um meio de vida é também uma antiga tradição: A música e a dança. Se adaptando aos costumes locais onde vão, costumavam a se apresentar nas praças, em mercados, em casamentos e outras festividades familiares.
Tendo se tornado muito populares há alguns séculos, segundo o professor Khaled Eman, as vestimentas Ghawazee poderiam ser consideradas sinônimo de luxo pelo uso de jóias, moedas e metais em suas vestes, que segundo ele, seria a melhor maneira de carregar os próprios pertences.

Não se sabe bem se, as Ghawazee levaram consigo para o Egito sua corporeidade típica ou se ao chegar ao Egito ali já encontraram as movimentações sinuosas e somando estas à sua própria maneira de dançar, criaram algo novo. Encontramos no texto de Edwina Nearing a opinião de Mulouk, que esteve em contato direto com algumas famílias desta etnia: Segundo a autora, os Nawar etnicamente são ciganos, ainda falam a língua Nawari, e em sua opinião ”Se, através de sua jornada no Egito, um país de língua árabe, estes grupos preservaram algo de suas línguas nativas, eles devem também ter preservado algo de seu estilo nativo de dança.” (Mulouk apud Nearing)

O fato é que a dança das Ghawazee pode ser considerada o estilo originário da dança do ventre como a conhecemos pois, estas foram as primeiras bailarinas profissionais do povo egípcio. Suas apresentações em praça pública foram objeto das primeiras cartas dos soldados franceses a seus superiores durante a ocupação francesa em solo egípcio em 1798. Foram diversas vezes descritas como lascivas e obscenas para os olhos dos ocidentais cristãos. Segundo Claudia Cenci em seu livro “A dança da libertação” (2001), as descrições sobre o Egito feitas por estudantes e pesquisadores franceses “despertou um enorme interesse sobre o Oriente, dando início a era Orientalista que influenciou a produção artística ocidental dos séculos seguintes”.

No século XIX o rei Mohammed Ali expulsou muitas famílias Ghawazee e proibiu
suas apresentações no Cairo e em Alexandria. Mediante a proibição, os artistas sediados nestas cidades precisaram se mudar. Encontramos o seguinte trecho no livro “Folclore árabe – Cultura, arte e dança” de Melinda James e Luciana Midlej: “Alguns grupos foram para o alto Egito, para Aswan, Luxor, Qena, Edfu e Esna, e outros foram para um local no centro da região felahi chamado Soumboti.”

A maioria imigrou para o sul, para a região do alto Egito, ou Said. Assim como a família Maazin, há muito estabelecida no sul. "Banat Maazin" - As filhas de Maazin - São ainda muito conhecidas por suas apresentações de música e dança típicas da região Said. Este grupo ficou muito famoso e internacionalmente conhecido, tendo feito participações em filmes e grandes festivais de cultura. Nos dias de hoje, são as mais conhecidas e ainda é possível contato com Khairiyya Maazin, descrita por Melinda James como “a última Ghawazee”, que ainda dá aulas de dança para dançarinas pesquisadoras em sua casa em Luxor.



A região do delta do rio Nilo conhecida como Soumboti abrigou (e talvez ainda abrigue) um clã de famílias ciganas. Música, ritmo, dança soumboti, se conectam com a expressão Ghawazee e segundo Melinda James e Luciana Midlej seu estilo sofre grande influência beduína, da cultura felahi caipira, do Cairo e de Alexandria, sendo uma dança ousada, enérgica e sensual.



À primeira vista a dança das Ghawazee pode ser considerada como que “sem acabamento”, por se tratar de uma dança popular genuína. Podemos listar alguns movimentos típicos conhecidos pela dança do ventre com twist, as batidas laterais de quadril, contrações pélvicas, shimmies de ombro, o shimmie conhecido pelas americanas como shimmie de ¾ e básico egípcio.



Faz parte do estilo o uso predominante dos snujs durante as apresentações e no caso de uma representação das Ghawazee do alto Egito, o uso de bastão ou bengala é opcional. Desde o século XIX encontramos diversos registros de vestimentas típicas: Grandes batas, saias longas, bolerinhos ou cholis, saias de babado na altura dos joelhos, calças bufantes. A Ghawazee moderna usa sempre galabia, que pode ser de asuit, bordada com pastilhas, paetês ou muitas franjas. A Ghawazee sempre usa muitos adornos como colares, brincos e pulseiras e sempre adornos na cabeça que pode ser uma tiara grande bordada, um lenço de moedas ou bordado com vidrilhos. O colar com as luas crescentes invertidas é uma marca dos adornos Ghawazee.



 A dança Ghawazee e o Estilo Tribal Americano de Dança do Ventre

Os artigos que contam a história da dança do ventre nos Estados Unidos contam que a primeira apresentação se deu em 1893 na World’s Columbian Exposition em Chicago, uma feira organizada para a comemoração de 400 anos da chegada de Colombo à América e que contava com exibições culturais internacionais. Havia nesta feira uma área chamada “Streets of Cairo” onde aconteceram apresentações de dança de um grupo que seria de origem Ghawazee. Segundo Michelle Harper o grupo foi levado para Chicago pelo empresário Sol Bloom, que teria visto a apresentação do grupo em 1889 em Paris na Paris Exposition Universelle. A partir do evento em Chicago, onde a sociedade americana ficou chocada com as apresentações, muitas dançarinas passaram a se apresentar pelos Estados Unidos usando o nome artístico “Little Egypt” dando origem ao “estilo cabaré americano de dança do ventre”.

É possível dizer que já no chamado “estilo pré-tribal” da dança do ventre de Jamila Salimpour, em seu grupo Bal Anat na década de 70, podemos encontrar muitas influências da dança e da música Ghawazee. Desde o uso massivo dos snujs, dos elementos usados para os figurinos até a formação do vocabulário técnico do estilo de Jamila com muitos movimentos de origem Ghawazee. É importante entender aqui que o estilo criado por Jamila Salimpour influenciou fortemente o American Tribal Style®. Podemos citar alguns movimentos muito marcantes da técnica de ATS® que tiveram influência direta do estilo Bal Anat e que têm na dança Ghawazee a sua origem: Shimmie Step, Egyptian Basic, Shoulder Shimmie, Reach and Sit, Doble back, Layback, Arabic, Circle Step, Body Wave, Taxeem e claro: Ghawazy Shimmie Combo, criado posteriormente. Diversos destes movimentos fazem parte também do vocabulário gestual de outras danças de etnias do norte da África como beduínos e berberes e foram largamente usados por Jamila Salimpour em suas coreografias. Este vocabulário técnico se tornou a marca da dança do ventre californiana que deu origem ao ATS®. Carolena Nericcio, criadora do estilo, trabalhou em cima destes movimentos ao longo dos anos incluindo movimentações de braço específicas, acrescentando a postura flamenca e criando novas combinações de movimento exclusivas para o ATS®, modificando o caráter popular dos movimentos. As músicas típicas Ghawazee também são bastante apreciadas para performances de ATS®.



Jamila Salimpor                                        Ghawazee                                FatChance BellyDance


Apesar da clara influência da movimentação no vocabulário de tribal, onde mais se percebe a presença da dança Ghawazee é na tradição do improviso. O American Tribal Style® é um estilo de dança criado para o desenvolvimento da chamada coreografia improvisada ou improvisação coordenada. A dança das Banat Maazin, por exemplo era sempre dançada em grupo, como no ATS®. Uma das dançarinas tomava uma posição de liderança e as outras a seguiam, sendo esta liderança compartilhada com outra dançarina, como no ATS®. Assim como o vocabulário técnico, a formação do grupo e posicionamento das dançarinas foi modificado e estilizado sempre pensando no aspecto cênico da performance artística, na estética apresentada ao público.
Acredito que apesar das estilizações, o Estilo Tribal carrega consigo algo universal, que é marca da dança Ghawazee e que faz com que esta tradição sobreviva por tantos séculos: A alegria da dança coletiva e espontânea. A beleza da diversidade, a sensualidade natural da mulher que é livre para se expressar através de seu corpo e de sua arte.



Fontes
HARPER, Michelle “Hoochie Coochie: The Lure of the Forbidden Belly Dance in Victorian America” publicado no site https://www.readex.com
CENCI, Claudia “A dança da libertação”, Vitória Régia, São Paulo, 2001.
MIDLEJ, Luciana ; JAMES, Melinda “Folclore Árabe cultura, arte dança”, Kaleidoscópio de Ideias, São Paulo, 2017.
NEARING, Edwina, “The Gawazee Tradition”, publicado no site www.gawazee.com
WILLIMAS, A. “Dom of the Middle East: An Overview” publicado no site http://www.domresearchcenter.com
PERETZ, Miriam “Dances of the “Roma” Gypsy Trail From Rajastan to Spain: The Egyptian "Ghawazi" Dance” publicado no site http://www.domresearchcenter.com
MOHAMED, Shokry” La danza mágica del vientre”, Mandala Ediciones, Madrid 1995.
ALMEIDA, Isabela “Dança do Ventre: Transformações através do tempo”, Univercidade, Rio de Janeiro, 2009.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

DANÇA POPULAR X DANÇA CÊNICA X FOLCLORE

DANÇA POPULAR X DANÇA CÊNICA X FOLCLORE

Compreender conceitos é fundamental para a compreensão e análise crítica do que fazemos e do mundo que nos cerca.
Dentro deste aspecto, vamos tentar conceituar as expressões “Dança Popular”, “Folclore” e “Dança Cênica” e tentar compreender como se aplicam no universo da dança oriental que comumente chamamos “Dança do Ventre”.

Se aceita como significado geral para o termo “Folclore” tudo aquilo que se relaciona à tradição e costumes de um povo, que seja transmitido de geração em geração. Sejam lendas, hábitos alimentares, rituais religiosos, ou artes em geral. Estudiosos da cultura erudita costumam caracterizar como folclore tudo aquilo que não é erudito. Algumas fontes mais rigorosas caracterizam como folclore aquilo que está ligado à tradição através de um rito, que geralmente é de origem religiosa. Mesmo que este seja o ritual do casamento.

Ex: Peguemos duas manifestações populares brasileiras, a Folia de Reis e o Funk. Um pode ser considerado folclore e outro, com certeza não. Por quê? Porque a Folia de Reis é uma manifestação completa, antiga, mantida de geração a geração, tradicional e ligada ao ciclo natalino do calendário católico. O Funk... nada disso. Mas se com o passar dos anos, algum ritual passar a ser conectado ao Funk através dos tempos, daqui a 100 anos, pode ser que assim seja considerado.

Dentro deste ponto de vista, a grande maioria das danças que aprendemos como folclore árabe não são mesmo danças folclóricas, mas danças populares.
A dança popular será em família, com amigos, em ambiente descontraído, uma festa, um evento popular, sem por isso exigir refinamento técnico de quem a pratica, sendo desenvolvida de forma espontânea e natural.

Note – se que de forma alguma isto significa que a dança popular seja de fácil execução ou aprendizado, mais sim, que é natural para aquele que pertence àquela cultura.
Podemos comparar ao nosso samba brasileiro, onde se difere o modo como sambamos em festas, do samba que é levado para o palco por passistas e dançarinos profissionais.

É importante compreender também, que algumas danças que foram levadas ao palco e são consideradas por nós como “Folclore”, nem mesmo dança popular são, como é o caso do Meleya Laff. Não existe, dentro da tradição popular egípcia”, uma dança com Meleya. Este é apenas um acessório de vestimenta comumente usado pelas egípcias há várias décadas atrás. A dança com Meleya foi criada por Mahmoud Reda e Farida Fahmy para retratar um tipo de mulher egípcia, criar um personagem incluído em um enredo e com ele uma cena que envolveria interpretação e dança. Meleya é “Dança Cênica” que usa a dança popular baladi ou “Skandarani” como base técnica de sua expressão.

A Dança do Ventre é uma Dança Cênica, artística, de palco, que teve origem na tradição popular e na maneira popular de inserção profissional desta dança na sociedade egípcia. Raks baladi é a dança popular como o samba é a dança popular do Rio de Janeiro. A Dança do Ventre como a dança artística, foi desenvolvida na virada do século XIX pra o XX e imortalizada para o mundo através do cinema.
Nesta época a dança Baladi foi leveda ao palco, onde sofreu alterações e fusões com outras danças como o Ballet, dando origem a Raks el Shark.
É preciso pensar nas diferenças entre o conceito de dança popular e de dança artística, pensada para o palco.

Para simplificar, diremos que a dança de palco teria a obrigação de buscar um refinamento que se adequasse às exigências de um público, modificando desde a maneira como a artista se coloca em cena até a escolha do figurino, que deve inovar e ser apropriado para a cena sob a luz dos spots.

Folclore e dança popular também sobem aos palcos. Sempre, no show das grandes bailarinas e nas apresentações de inúmeras companhias folclóricas. Porém com música, figurino e modo de agir que melhor retrate aquele contexto popular. Apesar das interferências coreográficas, a ideia é que predomine o sabor popular na apresentação. Ao pisar o palco com uma direção artística, com posicionamentos trabalhados, figurinos elaborados, maquiagem e etc, as dançam populares sofrem necessariamente uma “descaracterização” pelo simples fato de ter sido retirada de seu ambiente natural. Um popular qualquer manifestando sua cultura jamais será igual à dança no palco. Por isso é tão importante buscar as raízes das danças que estudamos, para absorver seu verdadeiro “sabor” e trazê-lo ao palco um pedacinho melhor de sua essência.

Todas estas danças cênicas, folclóricas, ou não, acabam sofrendo influência do balé. Muito mais porque o balé foi a primeira modalidade de dança a pensar em conceitos cênicos, do que da técnica geral de balé em si. O Fundamento técnico geral em dança, que embasa todas as danças cênicas, foi abordado primeiramente ali. Acabamentos e posicionamentos de braços, pernas, postura. Eixo e técnica para girar, transferência de peso. O público quer ver estas qualidades na dança que assiste, seja em qual modalidade for. Quem assiste, quer a sensação de que está assistindo algo elaborado, que não pode ser executado por qualquer um, que foi pensado e com cuidado e agradável de ser visto. Eis o porquê de se estudar a base fundamental do balé para melhorar a performance cênica.

Dentro da trajetória da dança cênica “Dança do Ventre” pelo mundo, vamos encontrar diversidade de estilos que casam com o histórico corporal e cultural de cada bailarina que a reproduz ao redor do mundo que também se relaciona com aquilo que seu público local tem como expectativa de apresentação, de acordo com o que é divulgado pelas mídias locais. E assim a dança do ventre vai se afastando cada vez mais de sua origem popular egípcia e cada vez mais se tornando uma linguagem cênica universal.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Considerações iniciais sobre a Dança do ventre


Segue abaixo texto de minha autoria com algumas considerações voltadas para aquelas que estão começando a compreender a nossa dança. O texto é baseado em respostas a perguntas frequentes em sala de aula. Opiniões pessoais baseadas em pesquisa e experiência.

Introdução
Para compreendermos o que vemos quando assistimos a uma apresentação de Dança do Ventre, alguns aspectos devem ser levados em consideração:
O primeiro é que assistimos a uma apresentação artística, na qual a artista que a executa tem liberdade de criação, ao mesmo tempo em que utiliza informações técnicas adquiridas em contexto de aprendizado, seja este aprendizado em sala de aula ou em contato direto com a cultura árabe.
A segunda coisa relevante a ser levada em consideração é que se trata de algo que o público brasileiro não pode compreender em sua plenitude, mas apreciar e sentir com a sensibilidade artística comum a todos os seres humanos. Quando digo que não é possível ao público brasileiro compreender em sua plenitude, quero dizer que por tratar – se de algo referente à outra cultura, não temos referências, nem mesmo conhecimento, nem compreensão das letras das músicas, por isso torna – se difícil para nós. É o mesmo que pedir a um árabe que compreenda em sua plenitude uma apresentação de samba...
Daí o engano de muitos que acabam tratando a dança do ventre como “dança de acasalamento”, fruto da ignorância a respeito desta arte. Samba é ainda mais sensual, mas não se encontra fantasia de passista para vender em sex shop, não é?

De todo modo, qualquer forma de expressão corporal pode ser utilizada por aquela que possui este conhecimento e para qualquer fim. Basta que seu conhecimento seja utilizado com bom senso.
Para isto vamos usar duas formas diferentes de pensar a dança do ventre: A dança que se faz para público e a dança que se faz entre quatro paredes para seu amado. Teremos nestas duas situações posturas diferentes da bailarina. Não é possível se posicionar para o público da mesma forma como nos posicionamos de forma íntima para uma pessoa específica sem correr o risco de vulgarizar em excesso a apresentação.

Quanto ao aspecto sagrado da Dança do Ventre, pode – se dizer que, sem colocar em debate os inúmeros textos e argumentos escritos sobre o tema, na prática, este se manifesta de forma pessoal, trazendo à tona o sagrado feminino existente universalmente em todas as mulheres do mundo, mas que nada tem a ver com a aplicação direta da dança na cultura árabe. Cada uma faz de sua dança aquilo que bem quer e não é preciso ressaltar aspectos sagrados em apresentações, assim como não existe problema algum em realizar uma performance utilizando as técnicas de Dança do Ventre para trabalhar o sagrado feminino.

Deve – se dizer que na cultura árabe, a Dança do Ventre é vista como entretenimento e tradição. Encontramos show de dança na grande maioria dos casamentos árabes e neste ponto sim, encontramos alguma referência ritual, se pensarmos na cerimônia de casamento como ritual. E neste capítulo teremos referências à fertilidade e à sorte dos noivos.
No geral, os espetáculos de Dança do Ventre nos países árabes acontecem em locais variados desde hotéis luxuosos, até cabarés. O público árabe aprecia a dança, mas tem também muito preconceito com as bailarinas no geral, sendo geralmente as bailarinas árabes de origem muito humilde.
Com a valorização da dança pelos turistas ocidentais, muitas bailarinas estrangeiras passaram a serem contratadas para trabalhar no mundo árabe.

Performance x Apresentação tradicional

Para falar deste tema é muito importante entender que Dança do Ventre tradicional é dança solo. Qualquer número de grupo foge ao contexto tradicional e se enquadra como performance. Mesmo que utilizando música tradicional.
A performance é livre, pois a bailarina e coreógrafo não têm a obrigação de seguir estritamente o tradicional e podem inovar, utilizar novas técnicas, músicas e roupas diferentes, e ainda outros acessórios. Performance pode ser solo ou em grupo. Os acessórios fazem parte das apresentações com espada, punhal, fogo, serpente, taças, flores e mesmo o véu é considerado um elemento performático incluído nas apresentações tradicionais de dança do ventre.
Importante ressaltar que as performances, em sua maioria, foram introduzidas por ocidentais estudiosas da dança do ventre. É o caso de outro estilo de dança, o “Estilo Tribal”, que mistura elementos de diversas danças étnicas com técnicas de dança do ventre. (dança espanhola, cigana, hip hop, folclore árabe)

Outros acessórios utilizados e considerados tradicionais e folclóricos: bengala, bastão, snuj (címbalos), melea (véu negro), jarro.

Dança artística x Dança Popular – Dança do ventre x Baladi

Para compreender o estilo baladi e suas diferenças em relação à “Raks el Shark” (que conhecemos como Dança do Ventre), é preciso compreender o conceito entre dança popular e dança artística, pensada para o palco.
Para simplificar, diremos que a dança de palco teria a obrigação de buscar um refinamento que se adequasse às exigências de um público, modificando desde a maneira como a artista se coloca em cena até a escolha do figurino, que deve inovar e ser apropriado para a cena sob a luz dos spots.
A dança popular será em família, com amigos, em ambiente descontraído, uma festa, um evento popular, sem por isso exigir refinamento técnico de quem a pratica, sendo desenvolvida de forma espontânea e natural.
Note – se que de forma alguma isto significa que a dança popular seja de fácil execução ou aprendizado, mais sim, que é natural para aquele que pertence àquela cultura.
Podemos comparar ao nosso samba brasileiro, onde se difere o modo como sambamos em festas, do samba que é levado para o palco por passistas e dançarinos profissionais.

Vamos nos referir à Dança do Ventre como a dança artística, desenvolvida na virada do século XIX pra o XX e imortalizada para o mundo através do cinema.
Antes de tal evento, se alguma bailarina fosse inquirida sobre o nome da dança que praticava, diria: “Minha dança é a da minha região”, ou seja: “Baladi”.
Nesta época a dança Baladi foi leveda ao palco, onde sofreu alterações e fusões com outras danças como o Ballet, dando origem a Raks el Shark.
Claro que folclore e dança popular também sobem aos palcos. Sempre, no show das grandes bailarinas e nas apresentações de inúmeras companhias folclóricas. Porém com música, figurino e modo de agir que melhor retrate aquele contexto popular. Apesar das interferências coreográficas, a ideia é que predomine o sabor folclórico na apresentação.