domingo, 8 de janeiro de 2012

O estilo turco de Dança do Ventre e a história da DV ocidental

Tive hoje a oportunidade de ler o post da amiga Hanna Aisha sobre o estilo turco em seu blog: www.hannaaisha.blogspot.com
Fiquei bastante interessada, porque pouco se fala em Dança Turca aqui no Brasil, atualmente. Um ou outro workshop, perdido, muito pouca informação. Vale mencionar que aqui no Rio temos uma pesquisadora incomparável, a Yasmim Rajal, que ministra cursos de Dança dos Haréns, e com ela tive a oportunidade de preencher algumas lacunas no meu parco conhecimento a respeito do assunto.

Esta será uma postagem de considerações pessoais. Nada aqui é regra e está passível de discussão. Aliás, aquela que tiver informações relevantes a respeito, por favor, contribua!

Acho que o estilo Turco se conecta com a origem da Dança do Ventre no Brasil. Indiretamente, talvez.
Lembro que na época que comecei a dançar: as roupas, as músicas e a movimentação que utilizávamos nas apresentações eram todas muito influenciadas por este estilo, embora não fizéssemos a menor idéia disto. Não havia muita informação. Tudo o que tínhamos era fitas VHS e K7 antigas e mal gravadas. Só posteriormente chegou até nós a informação via workshops e internet.
Muito tempo depois é que pesquisando sobre a história da DV e sua trajetória pelo mundo é que pude entender que a dança turca influenciou muito o estilo cabaret americano e o estilo das pioneiras no Brasil. Só agora posso olhar para trás e identificar os traços étnicos daquilo que era transmitido de uma forma orgânica, quase ingênua.
A estrutura das apresentações que fazíamos era muito semelhante ao estilo Cabaré Americano: Uma entrada com véu, uma música lenta para trabalho de chão, um número de snuj e solo de derbake. Uma moderninha animada para colocar todo mundo pra dançar no fim. Utilizávamos muita música turca além de libanesa e pop egípcio. George Abdo era o Top hit de todos os shows. Ele fazia músicas belíssimas para performance.
 
Além dele, Hossam Ramzy era muito utilizado e através dos seus cds alguma luz de informação sobre compositores tradicionais egípcios. Mas isto não tinha tanta importância para a maioria das bailarinas. Só eu é que tinha o habito quase psicótico de saber os nomes das músicas, dos compositores e em que disco foram gravadas.
Em 2009 tive a oportunidade de conversar longamente com a bailarina americana Ansuya, na minha opinião, uma das melhores representantes do cabaré americano. Juro que foi só a partir daí é que comecei a valorizar o estilo americano. Não que seja o meu preferido, mas percebi que a dança do ventre lá tem uma história que passa por todo o século XX e que se liga à própria história da imigração médio oriental nos Estados Unidos. O estilo americano é na verdade uma grande salada de todas as culturas médio orientais e do norte da África que se encontraram por lá, porta com porta. E a capacidade de sistematização e comercialização americana, a transformaram em um produto artístico muito rentável. O aspecto cultural já está por aí considerado como tal. A dança que se faz nos Estados Unidos não é a dança do ventre de lugar nenhum. É a dos Estados Unidos. Queiramos ou não, nós bebemos muito nesta fonte. E o estilo turco foi um dos que mais contribuiu para a formação do "Cabare Style". Por quê? Pelo seu aspecto performático, que é melhor comercializável.

O estilo turco se difere consideravelmente do Egípcio. Este último foi penetrando no Brasil e modificando muito nossa maneira de dançar, isto lá pelos idos do ano 2000, já século XXI. O que acontece é que ele veio junto com a internet e o crescimento do mercado nos bombardeando de festivais, workshops e se alastrando como a grande verdade absoluta. Não que eu não concorde. Adoro o estilo egípcio. É sem dúvida o que mais estudei.
No estilo egípcio existe uma preocupação particular com o conhecimento a respeito da cultura e da musicalidade. Precisamos mergulhar na cultura para bem representa - la, o que nos enche de responsabilidade a cada apresentação. 

No estilo turco a influencia cultural se dá de uma forma diferenciada: A dança foi fortemente influenciada pela dança dos haréns, que é uma dança de sedução.
A dança turca é performática, inclui muito trabalho de chão e é bastante acrobática, se utilizando de aberturas de pernas, cambrês e posições inusitadas. 

No post da Hanna, me chamou a atenção a comparação que ela fez com o estilo libanês. Acho que elas se estudam e se permitem influenciar entre si. Prestei atenção particular ao vídeo que ela postou da Princess Banu. No estilo desta bailarina, podemos identificar influencia de uma outra bailarina contemporânea a ela, a Nadia Gamal, que era libanesa. Nadia Gamal foi muito famosa e influenciou a dança em todo o oriente médio.

Aliás, aconselho a leitura do post da Hanna Aisha e os vídeos que foram lá postados. Nesrim Topkapi é sem dúvida uma grande referência ao estilo. Duvido que alguém não identifique ali muita coisa do que se fez e se faz ainda no Brasil.
Pra terminar, posto um vídeo da Didem, dançarina que acho particularmente genial. Muito técnica, quadril muito veloz, dissociações belíssimas. Se prestarmos atenção, ela faz fusão com Hip Hop. É uma marca do seu estilo pessoal, coisa que aliás têm se tornado tendência no oriente médio. Algumas combinações de movimento lembram MUITO Sauhaila Salimpour e o Estilo Tribal. Por que será?

4 comentários:

  1. Que post legal Nadja! Adorei o vídeo da Nadia Gamal tbm, não conhecia.

    Agora algo que tenho pensado sobre esses estilos e o que dançamos no Brasil é que nós temos muito essa discussão de estilo e qual é o melhor e bla bla bla...o que sinto é que tbm temos um estilo. O estilo brasileiro. Igual vc mencionou o americano...talvez não seja tão uniforme ou definido...mas é diferente. E essa coisa de libanes, egípcio sei lá já deveria ter caído pro terra. Acho que o pessoal tem vergonha de identificar sua dança como algo diferente, novo, pq seria "menos": menos original, menos importante, menos bonito, menos raiz, etc etc...mas não é..enfim! É o que ando pensando, pode ser que mude de opinião. Beijos

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  2. Oi, Lívia!
    Com certeza temos um estilo brasileiro, ora!
    Isto já é falado há algum tempo. Com algumas variações, mas com certeza as brasileiras têm algo que as identificam na maneira de dançar, por mais diferentes que sejam estas bailarinas entre si. Lá no Egito podemos dizer que o estilo Reda é bastante diferente do estilo "Dina", vamos dizer assim. Mas ainda assim são egípcios.

    Aqui no Brasil, muito do nosso estilo têm a ver com o próprio estilo Khan EL Khalili, eu acredito, que não existe em nenhum outro lugar no mundo. Claro que falar assim é uma forma de generalizar. Existem várias bailarinas com outras influências muito diversas do estilo KK. Mas no geral, temos ainda algo que nos liga.
    Desenvolver seu próprio estilo é algo importante. Tem a ver com sua própria expressão artística e sua relação com o mundo.
    Eu não tenho vergonha de ter meu próprio estilo. Acho que ninguém dança igual a mim. E isto é meu maior orgulho como professora: Nenhuma bailarina que se forma comigo dança igual a mim. Saem do meu curso tendo desenvolvido sua própria personalidade artística.

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  3. Ah sim! É que eu quis dizer que nessa história de estilos x, y, z, parece que o pessoal fica numa briguinha do que é melhor, ou mais certo e acho isso meio sem sentido sabe. Mas como eu disse, é algo que tenho pensado e por enquanto não conversei com ninguém tbm pq não tenho ngm msm pra falar e repensar tudo.. Pq eu sei que a DV é uma dança que representa uma cultura, mas olhando seu desenvolvimento no tempo e no espaço já a considero como algo que vai além e que permite inserções, novas interpretações, sem descaracterizar a dança. O problema é que esse tipo de coisa é criticada como se estivessem matando a DV, o que na minha visão é só um processo comum já que ela ganhou novos espaços e novos tempos...

    Vc com certeza tem um estilo próprio e isso admiro muito. É algo muito difícil, é outra coisa que tenho pensado mas esse não sai muito do lugar não! rsrs Como buscar seu estilo, como definir seu estilo, se ele já existe, uma marca, etc...é complicado! Além de ser complicado chegar lá, por isso admiro bailarinas com estilo próprio. Até pq cansa ver td mundo igual né =P Beijos!

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  4. É isso mesmo, Lívia! Não para ter muitas certezas não, mas levantar questionamentos é fundamental para a análise daquilo que fazemos. Observar as diferenças e semelhanças entre os estilos de dança nos ajuda a compreender a trajetória da dança oriental através do tempo e do espaço e nos ajuda a compreender como ela afeta a nossa vida direta ou indiretamente. Afinal.. o que é que estou fazendo quando faço um shimmie e ensino outras mulheres a fazer o mesmo?
    Eu concordo com você. A dança do ventre cênica não morre porque já nasceu com a imensa capacidade de se recriar. Ela já é em si uma fusão.
    Mas existem as danças populares das quais ela se derivou originalmente. Gosto de me aprofundar neste estudo justo para não perder a conexão com sua raíz.
    Agora, tudo depende de qual face da dança você quer explorar. Para mim todas são válidas, dependendo da ocasião.

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